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Ilusão breve

por Luís Naves, em 24.12.15

No parque de diversões há uma zona de neve artificial onde podemos sentir a emoção de caminhar numa floresta gelada. Ontem, fiquei sozinho na penumbra de um denso nevoeiro que distorcia as campânulas de luz e as sombras de objectos distantes: a réplica de um velho eléctrico, um melancólico candeeiro público, os contornos incertos de uma estátua. A neve rangia sob o peso dos meus passos, ouvi ao longe os sinos e pensei, por um instante de ilusão perfeita, que talvez viajasse nas engrenagens de uma poderosa máquina do tempo.

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Cada pedaço sólido de realidade

por Luís Naves, em 17.12.15

Ao fundo, junto ao horizonte, as nuvens escuras alertavam para a aproximação de uma tempestade. E o mar agitava-se, caótico, largando sal e espuma. O turbilhão do vento desfazia lentamente a terra firme. E assim era com o seu mundo, onde forças invisíveis demoliam cada pedaço sólido da realidade.

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Modas

por Luís Naves, em 10.12.15

Vivemos rodeados de coisas superficiais, com escassa relevância, feitas de moda e preparadas para serem imediatamente esquecidas. No fundo, são distracções.

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Os nossos avós foram irresponsáveis

por Luís Naves, em 06.12.15

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A era industrial produziu quantidades de gases de efeito de estufa que fizeram aumentar a temperatura média do planeta. Durante os primeiros 150 anos, os efeitos foram pouco relevantes, a temperatura subiu devagar. Só no início do século XXI começaram a ser discutidas políticas que permitissem reduzir emissões, sobretudo do dióxido de carbono, que podia permanecer na atmosfera por mais de mil anos, mas o tema foi politizado e a mudança deu-se lentamente.

Sem qualquer efeito de estufa na sua atmosfera, o planeta Terra seria uma bola de gelo, mas as emissões da era industrial atingiram níveis excessivos e provocaram um aquecimento global. Conhecemos esta história e vivemos na pele os seus efeitos. Em cada ano, a nossa cidade é atingida por furacões devastadores, a península ibérica sofre secas prolongadas e inundações súbitas que provocam perdas humanas e destruição económica. Parte de Lisboa está inundada. No ano passado, uma onda de calor matou mais de 50 mil pessoas. Durante duas semanas, não foi possível viver sem aparelhos de ar condicionado, mas muitos pobres continuam a não ter acesso a esses equipamentos. Nos últimos 250 anos (desde 1850), as temperaturas médias do planeta aumentaram 4 graus centígrados, mas em Portugal o valor é de pelo menos 6 graus.

Há países mais afectados do que o nosso, é um facto, mas isso serve de pouco consolo. No resto do planeta, as alterações climáticas matam milhões de pessoas por ano e custam fortunas em colheitas perdidas. Há centenas de milhões de deslocados. Abandonámos os combustíveis fósseis e as emissões são hoje reduzidas, mas os efeitos vão prolongar-se por mais alguns séculos. Somos hoje vítimas de efeitos que não produzimos e os nossos avós foram simplesmente irresponsáveis.

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Os últimos cem anos

por Luís Naves, em 04.12.15

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Quando penso nos últimos cem anos tenho dificuldade em resumir o muito que aconteceu. A inteligência artificial mudou o trabalho: hoje os robôs ocupam-se de todas as actividades rotineiras e as pessoas dedicam-se ao lazer, à criatividade, à política e ao comércio; tudo o resto é feito por máquinas e o excesso de produtividade resulta numa riqueza que pode ser distribuída, em forma de subsídios que equilibram a sociedade. Parece-me que esta foi a grande transformação, mas há outras: a esperança de vida passou para 120 anos e a medicina controla doenças que encurtaram a vida dos nossos avós. Estão a ser desenvolvidos humanos geneticamente melhorados e a própria espécie poderá evoluir de forma artificial, mas esta é uma área controversa, que gerou um mercado negro.

Nos últimos cem anos foram resolvidos vários problemas nos países ricos: baterias, carros e aviões eléctricos, poluição de solos e de água potável. Existe abundância de energia, sobretudo solar e de fusão, mas apesar de não haver combustíveis fósseis, o clima do planeta continuará a ser afectado, devido à inércia do efeito de estufa criado sobretudo na primeira metade do século XXI. No plano político, esbateram-se os conflitos: a América é hoje um império populista dominado por oligarquias; a Europa aliou-se à Rússia e China, mas os dois blocos cooperam no controlo de estados falhados e da economia global capitalista, que é vulnerável a crises cíclicas. Ao contrário do que sucedeu no século XX, fértil em guerras e invenções (relatividade, modernismo, bomba atómica, computador), o século XXI foi marcado pela inovação, mas sobre invenções existentes.

Estamos a explorar Marte, a cintura de asteróides e o sistema de Júpiter, mas o nosso maior fracasso tem sido a incapacidade de vencer as enormes distâncias na exploração de outros sistemas solares. Há missões a decorrer, mas só darão resultados no século XXIII.

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Sonho lento

por Luís Naves, em 02.12.15

Faz-me impressão pensar naquelas pessoas que gastaram o bem precioso e raro da vida a perseguir quimeras de orgulho e vaidade. Acabaram todas da mesma maneira, primeiro como más memórias, depois no esquecimento. Porventura será demasiado tarde, mas a humanidade tende para o aperfeiçoamento, pois que a ‘bondade’ não é sobretudo um valor, antes uma estratégia de sobrevivência capaz de prolongar a nossa duração por umas centenas de milhares de anos ou porventura uns milhões. Enfim, algures no futuro, a nossa espécie irá extinguir-se também, como acontece com todas as espécies, que podem em certo ponto da sua existência perder a vitalidade necessária à luta pela vida, a extinção pelo desinteresse, que é uma mera hipótese de longevidade, perante a alternativa da extinção pelo excesso. Um dia, seremos todos esquecimento e, depois, as civilizações humanas deixarão de existir, ficando apenas as suas ruínas engolidas pela paisagem. E a própria espécie humana desaparecerá nas camadas inferiores, apagando-se os seus rastos, o que pensaram e escreveram em vão tantas pessoas, o que aprenderam e construíram, até que um dia o próprio planeta Terra será incinerado na sua órbita, isto antes do sistema solar se extinguir, para dar lugar a uma próxima geração de estrelas que, por sua vez, brilhará durante biliões de anos, antes de se apagar por seu turno, na prolongada noite do universo, a chamada eternidade, que talvez não seja muito mais do que o sonho lento de um deus indiferente.

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