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Novela incompleta (9)

por Luís Naves, em 16.06.16

A sala seguinte estava repleta de famosos, que se distinguiam das máquinas pelos defeitos humanos: condessa Kover-Duda, muito conhecida em toda a Europa e que tinha uma cara demasiado comprida, corpo deformado pela gordura, não conseguia parar de falar, num inglês macarrónico que os seus belos acompanhantes pareciam compreender totalmente; o socialite e milionário Juan de Alicante tinha à sua volta três louras cibernéticas e parecia absorto em pensamentos só dele; havia ainda um conde-barão, uma escritora da moda acompanhada do seu ghost-writer, um cavalheiro da indústria extremamente gordo. E, claro, eu, que não devia estar ali, se não fosse a circunstância de me terem dado santuário. A enorme sala era totalmente o oposto da anterior. Em vez de quadros clássicos imitados, as paredes tinham grandes reproduções de fotografias de objectos exóticos da retromania, que pequenos grupos de robôs apreciavam com vivo interesse: não se tratava de boas maneiras, mas notei que se interessavam pelos objectos, pois enquanto os olhavam não estavam a bajular humanos de fama, a fazer sala, por assim dizer, reparei nitidamente (e com grande surpresa minha) que eles apreciavam e discutiam entre si os ícones do passado. Reconheci alguns: os Mínimos, Darth Vader, um computador primitivo, a gravura de uma história de Jules Verne, o robô do Planeta Proibido, um ogre do Senhor dos Anéis, um cartaz de jazz, Marilyn Monroe. Passei ao lado de uma das máquinas, uma jovem belíssima, que se extasiava com uma imagem de Bambi. Não resisti a meter conversa:

“Um bocadinho infantil, não acha?” Ela sorriu, percebeu quem eu era, mas contrariou a minha opinião. Não, não achava, pelo contrário, nada infantil, apenas muito humano. Foi isto que ela disse. Uma robô com opiniões, nesse aspecto muito parecida com Norma.

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Novela incompleta (8)

por Luís Naves, em 07.06.16

Devo ter corado com aquele ‘nosso hóspede’ e fiz outras perguntas sobre a biblioteca, embora continuasse a não entender o objectivo do milionário. Palmer continuou naquele tom didáctico e lançou-se numa longa explicação sobre os livros que escolhia, os espécimes raros que procurava comprar, os critérios que seguia. A biblioteca já tinha mais de dez mil volumes, em apenas quatro temas diferentes. “Os livros são originais e os quadros são imitações”, disse eu, ainda pouco convencido. Foi Sombart quem rebateu a minha dúvida: “Não pode separar. Trata-se de tentar capturar o mistério insondável da beleza”.

“Isso seria um facto se o vosso pintor procurasse produzir quadros originais e não apenas imitações de estilos”. Sombart ponderou aquela minha objecção.

“Isso não teria qualquer função”, disse.

“Deixe-me reformular”, insisti. “Ele pinta magnificamente as obras de outros, por isso deve ser perfeitamente capaz de criar uma pintura sua, uma imagem única e que nunca existiu antes”.

“Sim, naturalmente, é capaz, mas não vejo a relevância”.

“Todos os quadros são de outros pintores”.

“Mas são suficientemente magníficos”, disse Sombart.

“E, no entanto, não possuem qualquer valor...”

“Suponho que terão um elevado valor para quem os olhar, pois são perfeitos. O valor, por assim dizer, está nas suas qualidades, que a cópia reproduz inteiramente”.

“Mas a imitação não tem alma”.

Houve uma pausa. Todos sorriram. “Teria resposta, se a alma existisse. Infelizmente, a sua hipótese é insatisfatória”, respondeu Sombart. Parecia sorrir, mas era simulação. Nessa altura, apontou para a sala de jantar e mudou de tom, dirigindo-se a mim:

“Deve estar esfomeado. Esta noite, foi preparado um verdadeiro banquete e terá a oportunidade de conhecer Brandes”. E, com a mão direita, Sombart fez um gesto largo, que era uma mistura de vénia, cumprimento e convite.

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