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Escrita diária

por Luís Naves, em 06.11.15

Ainda pouco falei sobre mim no meu diário, o que suponho constitui falta grave. E, no entanto, a escrita quotidiana aproxima-se do que faço. De uma montanha de informação tento extrair uma pepita dourada cuja singularidade esclareça certos fenómenos. No fundo, busco padrões no interior do espesso nevoeiro da desordem. Hoje em dia, as pessoas produzem informação como se fosse lixo e, se temos máquinas que podem fazer a reciclagem destes materiais da memória, o Estado escolheu confiar uma tarefa adicional a algumas pessoas do meu género, uma espécie de classe de mineiros capaz de mergulhar nas profundezas do tempo para extrair uma interpretação que faça sentido. Pertenço, pois, a uma classe de operários, um grupo desfavorecido.

Sou estudioso do final do século XX e início do XXI, mas sei que os intelectuais não estão na moda e de pouco servem em tempos que apagam o passado. Tento ler o mais possível, procuro imagens que me expliquem aquele mundo antigo. Consulto arquivos e leio livros velhos. No resto do tempo, vivo como os outros: festas, convívio, conversas, passeios, as minhas coisas.

Julgo que este diário é um razoável símbolo do que sou: o que aqui fica é apenas a parte ínfima do que me acontece ou sinto em cada dia. Os dias são feitos de rotinas, pensamentos que passam sem registo, pequenos eventos que logo esquecemos, o alheamento do sono, a reconstrução daquilo que lembramos, mesmo a sua reinvenção. Entre tanta informação semelhante, escolhe-se para a narrativa do diário o que julgamos definir-nos melhor, mas é quase sempre uma banalidade como as outras, o minúsculo equívoco, a mera ilusão de grandeza, a cintilação de um breve instante no gigantesco fogo-fátuo da vida.

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