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Escravos gregos

por Luís Naves, em 01.11.15

Os antigos romanos milionários tinham escravos filósofos gregos que ensinavam os filhos dessas famílias ricas. As nossas máquinas não são escravos e vivem felizes nas suas funções de serviço, mas não deixo de pensar em como tudo se repete.

Ontem, ao chegar a casa, eram três da manhã, devo ter feito pouco barulho e consegui surpreender os meus dois “escravos” no modo de pausa. Durante um breve instante tive uma forte sensação de irrealidade: Norma estava a um canto da sala, na escuridão, muito quieta, sentada na poltrona; José, o mordomo, zumbia no canto oposto, a estranha luzinha nos olhos, os membros rígidos, a postura imóvel. Que estariam ambos a pensar, no seu sono que não era sono? E atravessou-me, num raio impreciso, a ideia de ter ciúmes de Norma, de não suportar que ela não me ame de verdade, mas que os seus sentimentos (se os tem) não irão além de uma programação inteligente e cheia de indiferença pela minha pessoa (pelo menos como pessoa). Não consegui reprimir a ideia de que teria amado de igual forma qualquer outro indivíduo que a comprasse, assim como José o Mordomo serviria outro humano com dinheiro suficiente para adquirir aquele modelo específico, exactamente aquela máquina, de subtis variações em relação a outros equipamentos da mesma série.

Têm consciência? Claro que têm. Sentiram de súbito a minha presença, despertaram do seu sonambulismo eléctrico, saíram da prostração e dedicaram-se apenas a mim, encheram-me de amabilidades, nenhuma delas falsa, pois os robôs não sabem mentir. A minha máquina de conforto, o meu mordomo. Não podiam perceber de onde vinha a minha humana irritação. E eu só pensava: se fosse rico, comprava um daqueles modelos caros de intelectual, um professor que soubesse tudo, como os escravos gregos, e com quem pudesse discutir estas inquietações.

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