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Inundações

por Luís Naves, em 05.01.16

Durante alguns dias, não consegui escrever neste diário. A realidade impôs-se. Após uma longa seca, a chuva começou a cair numa terça-feira e, durante toda a semana, não abrandou nem durante um único minuto. Parecia a monção, de tão densa e escura, mas estamos no Inverno, invulgarmente doce e quase tropical, é certo, mas inverno mesmo assim. Fomos avisados para o o perigo dos fenómenos climáticos extremos e este evento foi uma dessas calamidades. Ao terceiro dia de chuva contínua, rebentaram as velhas canalizações, ao quarto dia já a baixa histórica estava inundada e parecia a antiga cidade de Veneza, que não pôde ser salva das águas. A inundação chegou ao Rossio e cobriu os túneis, as velhas catacumbas, todos os alicerces da cidade. De montante do rio vinha uma corrente irresistível, que criou mais deslizes, colapsos, enxurradas, levando casas flutuantes, derrubando torres habitadas e devastando bairros inteiros. Como que respondendo a uma memória instintiva, a água reocupou o leito de rios esquecidos. Como sempre, foram os mais pobres a pagar o preço da decadência, sobretudo os migrantes e refugiados, que os poderes públicos consideram dispensáveis. Ao quinto dia, houve um apagão eléctrico, que ainda não está totalmente resolvido. Em muitas zonas, falta água potável. Os hospitais e as morgues estão repletos. A chuva já parou e a cidade começa lentamente a recuperar, a cheia já recua, mas morreram mais de cinco mil pessoas e há dezenas de milhares de desalojados, que se amontoam em condições precárias, nos edifícios públicos sobreviventes. Como é fácil cair no caos e como se compreende melhor, nestas circunstâncias, o período do grande vandalismo ou aqueles tempos perturbados em que a humanidade parece recuar.

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