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Explicando a grande estagnação

por Luís Naves, em 19.01.16

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Em textos anteriores tentei explicar o que levou ao período crítico que se instalou no mundo industrializado entre finais do século XX e o primeiro terço do século XXI e, como qualquer aluno hoje sabe, culminou nas devastações do Grande Vandalismo (década de 30 do século XXI), a que se sucedeu finalmente a Singularidade. As causas do problema estão sobretudo nas reacções à globalização acelerada que caracterizara os últimos anos do século XX, no final da Guerra Fria, quando surgiram novas tecnologias de informação e as primeiras redes digitais. Julgo existir outro factor: o aumento veloz das desigualdades, que provocou descontentamento e conduziu as democracias liberais a uma crise de legitimidade, com o aparecimento de formações de carácter populista, ou seja, anti-elitistas.

Os partidos tradicionais foram perdendo força, permitindo a ascensão progressiva de alternativas que começaram a travar o processo de globalização. Os países pobres tinham desvantagem, pois limitavam-se a exportar matérias-primas e as suas economias eram frágeis, as elites corruptas e gananciosas. Estes países viviam em constantes bolhas e estoiros, enquanto os ricos absorviam proporção cada vez maior do bolo global. Nas sociedades dos países avançados, ocorria um fenómeno semelhante, que funcionou enquanto a abundância permitiu que todas as classes sociais enriquecessem um pouco.

Quando a procura global diminuiu e os Estados endividados começaram a reduzir os seus orçamentos, cortando no emprego público e no investimento, o mundo entrou numa estagnação que viria a durar duas décadas e meia. Ao reduzir a redistribuição de rendimentos, este contexto permitiu enriquecer os ricos, levando os pobres a maior pobreza. A acumulação de descontentamento esteve na origem dos motins da década de 30. É esta a minha explicação, que baseio em leituras de livros esquecidos, mas estou disponível para discutir esta tese.

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Tentando explicar três décadas de crise

por Luís Naves, em 14.01.16

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Os antigos preocupavam-se com as clivagens entre esquerda e direita, mas na realidade o que existia era oposição entre pragmatismo conservador e ilusões populistas. Isto correspondia a duas visões diferentes da realidade, o que explica a erosão dos partidos tradicionais que tinham construído a sociedade estável do final do século XX. Na crise do primeiro terço do século XXI, que culminou nos movimentos do grande vandalismo (a que alguns historiadores chamam a flagelação), o modelo de democracia liberal estava já em dificuldades. As elites tinham fracassado: os intelectuais viviam em bolhas de fantasia, os donos da economia tinham atraiçoado o próprio capitalismo, os líderes políticos manifestavam a sua incapacidade de acção. A crítica populista que se espalhou pela Europa nas três primeiras décadas do século sublinhava com demagogia como o homem pequenino era massacrado: nos anos anteriores, os gestores ganhavam bónus milionários cada vez que despediam milhares de trabalhadores das suas empresas, o que melhorava a produtividade e acentuava a crise social. Era isso o capitalismo? A injustiça e o absurdo? Então, diziam os demagogos, não o queremos, como não queremos políticos cheios de banalidades e regras burocráticas, não queremos intelectuais que, omitindo o seu verdadeiro pensamento, falam em linguagem opaca e elitista.

A esquerda tradicional das democracias liberais já não tinha soluções para um mundo em mudança que, naquelas condições demográficas, não podia manter as estruturas do Estado social criadas no século XX. A direita foi por sua vez ultrapassada quando tentava conceber um modelo de Estado mínimo, algo que contrariava a crescente complexidade da sociedade global. Os populistas eram anti-elitistas, mas defendiam um Estado forte. Fracassaram mais tarde, em meados do século, por tentarem gerir a singularidade e a respectiva vaga de globalização adicional. Daí as desordens. Esta é a melhor explicação que encontro para as vagas políticas que destruíram a democracia liberal na Europa no primeiro terço do século XXI, mas posso estar a esquecer outros factores.

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Inundações

por Luís Naves, em 05.01.16

Durante alguns dias, não consegui escrever neste diário. A realidade impôs-se. Após uma longa seca, a chuva começou a cair numa terça-feira e, durante toda a semana, não abrandou nem durante um único minuto. Parecia a monção, de tão densa e escura, mas estamos no Inverno, invulgarmente doce e quase tropical, é certo, mas inverno mesmo assim. Fomos avisados para o o perigo dos fenómenos climáticos extremos e este evento foi uma dessas calamidades. Ao terceiro dia de chuva contínua, rebentaram as velhas canalizações, ao quarto dia já a baixa histórica estava inundada e parecia a antiga cidade de Veneza, que não pôde ser salva das águas. A inundação chegou ao Rossio e cobriu os túneis, as velhas catacumbas, todos os alicerces da cidade. De montante do rio vinha uma corrente irresistível, que criou mais deslizes, colapsos, enxurradas, levando casas flutuantes, derrubando torres habitadas e devastando bairros inteiros. Como que respondendo a uma memória instintiva, a água reocupou o leito de rios esquecidos. Como sempre, foram os mais pobres a pagar o preço da decadência, sobretudo os migrantes e refugiados, que os poderes públicos consideram dispensáveis. Ao quinto dia, houve um apagão eléctrico, que ainda não está totalmente resolvido. Em muitas zonas, falta água potável. Os hospitais e as morgues estão repletos. A chuva já parou e a cidade começa lentamente a recuperar, a cheia já recua, mas morreram mais de cinco mil pessoas e há dezenas de milhares de desalojados, que se amontoam em condições precárias, nos edifícios públicos sobreviventes. Como é fácil cair no caos e como se compreende melhor, nestas circunstâncias, o período do grande vandalismo ou aqueles tempos perturbados em que a humanidade parece recuar.

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Os nossos avós foram irresponsáveis

por Luís Naves, em 06.12.15

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A era industrial produziu quantidades de gases de efeito de estufa que fizeram aumentar a temperatura média do planeta. Durante os primeiros 150 anos, os efeitos foram pouco relevantes, a temperatura subiu devagar. Só no início do século XXI começaram a ser discutidas políticas que permitissem reduzir emissões, sobretudo do dióxido de carbono, que podia permanecer na atmosfera por mais de mil anos, mas o tema foi politizado e a mudança deu-se lentamente.

Sem qualquer efeito de estufa na sua atmosfera, o planeta Terra seria uma bola de gelo, mas as emissões da era industrial atingiram níveis excessivos e provocaram um aquecimento global. Conhecemos esta história e vivemos na pele os seus efeitos. Em cada ano, a nossa cidade é atingida por furacões devastadores, a península ibérica sofre secas prolongadas e inundações súbitas que provocam perdas humanas e destruição económica. Parte de Lisboa está inundada. No ano passado, uma onda de calor matou mais de 50 mil pessoas. Durante duas semanas, não foi possível viver sem aparelhos de ar condicionado, mas muitos pobres continuam a não ter acesso a esses equipamentos. Nos últimos 250 anos (desde 1850), as temperaturas médias do planeta aumentaram 4 graus centígrados, mas em Portugal o valor é de pelo menos 6 graus.

Há países mais afectados do que o nosso, é um facto, mas isso serve de pouco consolo. No resto do planeta, as alterações climáticas matam milhões de pessoas por ano e custam fortunas em colheitas perdidas. Há centenas de milhões de deslocados. Abandonámos os combustíveis fósseis e as emissões são hoje reduzidas, mas os efeitos vão prolongar-se por mais alguns séculos. Somos hoje vítimas de efeitos que não produzimos e os nossos avós foram simplesmente irresponsáveis.

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Os últimos cem anos

por Luís Naves, em 04.12.15

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Quando penso nos últimos cem anos tenho dificuldade em resumir o muito que aconteceu. A inteligência artificial mudou o trabalho: hoje os robôs ocupam-se de todas as actividades rotineiras e as pessoas dedicam-se ao lazer, à criatividade, à política e ao comércio; tudo o resto é feito por máquinas e o excesso de produtividade resulta numa riqueza que pode ser distribuída, em forma de subsídios que equilibram a sociedade. Parece-me que esta foi a grande transformação, mas há outras: a esperança de vida passou para 120 anos e a medicina controla doenças que encurtaram a vida dos nossos avós. Estão a ser desenvolvidos humanos geneticamente melhorados e a própria espécie poderá evoluir de forma artificial, mas esta é uma área controversa, que gerou um mercado negro.

Nos últimos cem anos foram resolvidos vários problemas nos países ricos: baterias, carros e aviões eléctricos, poluição de solos e de água potável. Existe abundância de energia, sobretudo solar e de fusão, mas apesar de não haver combustíveis fósseis, o clima do planeta continuará a ser afectado, devido à inércia do efeito de estufa criado sobretudo na primeira metade do século XXI. No plano político, esbateram-se os conflitos: a América é hoje um império populista dominado por oligarquias; a Europa aliou-se à Rússia e China, mas os dois blocos cooperam no controlo de estados falhados e da economia global capitalista, que é vulnerável a crises cíclicas. Ao contrário do que sucedeu no século XX, fértil em guerras e invenções (relatividade, modernismo, bomba atómica, computador), o século XXI foi marcado pela inovação, mas sobre invenções existentes.

Estamos a explorar Marte, a cintura de asteróides e o sistema de Júpiter, mas o nosso maior fracasso tem sido a incapacidade de vencer as enormes distâncias na exploração de outros sistemas solares. Há missões a decorrer, mas só darão resultados no século XXIII.

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Utopias espaciais

por Luís Naves, em 29.11.15

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Gosto de explorar velhas colecções de imagens e de textos sobre como o passado imaginava o futuro. Há 150 anos, nos anos 50 e 60 do século XX, esteve na moda a ideia da colonização de Vénus e de Marte, os dois planetas que, nesse tempo, pareciam poder albergar a civilização humana. Vénus era imaginada como imensa floresta pantanosa e quente; Marte era um deserto onde os humanos poderiam subsistir com equipamentos rudimentares de respiração. Só nos anos 70 ou 80 do século XX esta literatura popular abandonou as facilidades: afinal, Vénus era o inverso do que se imaginara: não havia mulheres sensuais nem oceanos rasos; não havia répteis monstruosos, plantas devoradoras de homens ou estranhas florestas labirínticas, apenas um efeito de estufa infernal que evaporara toda a água da superfície. A desilusão em relação a Marte foi semelhante, depressa a cultura popular percebeu que o planeta perdera grande parte da sua atmosfera e que tentar respirar na superfície seria uma rápida condenação à morte. Os planos para terraformar Vénus avançam devagar, são mais complicados do que se pensava. O planeta Marte talvez possa ser alterado, mas o custo é proibitivo. Onde estão as utopias espaciais do nosso tempo? Em 2115, sonhamos com a descoberta de planetas extrassolares habitáveis e já existem candidatos, o mais próximos dos quais a 30 anos-luz de distância, bagatela cósmica que uma grande nave de tecnologia actual levaria pelo menos 600 anos a transpor.

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As obrigações da civilização global

por Luís Naves, em 28.11.15

As alianças de nações fortes têm a obrigação de controlar as mais fracas, sendo isto válido para regiões ou estados falhados, crises humanitárias ou crimes ecológicos. As guerras são globais, embora pareçam confinadas a espaços geográficos limitados. Globais no sentido de poderem ultrapassar as fronteiras dos países envolvidos, como tantas vezes aconteceu na história, mas sobretudo ao longo do século XXI. A insurreição de pastores num deserto pouco habitado pode tornar-se num problema geral. Por isso, não há guerras inofensivas, e por isso são urgentes as operações policiais de pacificação. Nos dois séculos passados, as nações guerreavam por recursos e para manterem a supremacia ideológica, o que hoje é ainda válido de certa forma, mas muito menos, pois os recursos perderam peso e as ideologias são uma amálgama. O futuro será a ausência de conflitos militares entre nações ou alianças, significando que a violência se exerce por outros meios. Daí que para a civilização global, que inclui a maioria do planeta habitado, qualquer guerra seja algo que vem de fora e que só se poderá expandir para dentro das nossas fronteiras. Sabemos que uma escaramuça remota pode ser o terrorismo de amanhã, que uma obscura desavença religiosa se pode transformar na falha tectónica que ameaçará a própria civilização. As guerras não se combatem apenas com soldados, mas com economia, leis, tecnologia, cultura e ideias. As alterações climáticas deslocaram vastas massas de gente e esbatem-se as ideologias que em vão tentam travar a modernidade. Em certos locais do mundo, as instituições colapsam e para os habitantes destas calamidades só resta a alternativa da fuga. 

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Milénio

por Luís Naves, em 11.11.15

Dentro de alguns anos comemora-se o milénio da fundação de Portugal, mas temo que as comemorações não sejam memoráveis. O milénio pode ser celebrado em 2128 (mil anos da Batalha de São Mamede) ou em 2143 (reconhecimento do reino), conforme a interpretação, mas este será um assunto para especialistas, o que não impossibilita a realização de várias festas populares de arromba. O problema é que as pessoas deixaram de sentir as nações e a palavra pátria tornou-se um termo antiquado e caiu em desuso. Pensar hoje uma nação não faz sentido, pois o nacionalismo é um conceito considerado perverso e os corpos políticos só se justificam como grandes alianças entre povos e culturas diferentes.

Ao lançar-me a escrever este texto, tinha planeado uma grande explicação sobre Portugal e o seu destino, a sua sobrevivência de quase mil anos: enfim, falta tão pouco para chegarmos ao número redondo. No entanto, à medida que surgiam as palavras, percebi que o meu entusiasmo era um anacronismo. O que somos hoje? Parte menor da Europa, ou seja, um território no segundo nível, sem acesso ao verdadeiro poder e influência do núcleo duro. Caímos nesta situação secundária nos primeiros trinta anos do século passado, quando se acelerou a integração dos antigos países da Europa Central (da então chamada UE, agora a Federação). Somos um parceiro menor na grande aliança da Eurásia e a única vantagem da nossa posição internacional são as boas relações com o bloco sul-americano que, escusado será dizer, está do “outro lado”, ou seja, muito mais próximo dos Estados Unidos da América do Norte. Se houvesse um conflito entre os dois grandes blocos mundiais, a nossa situação de relativa periferia europeia seria um contratempo. Resumindo, Portugal existe em nome, tem uma identidade própria, mas diluída em relativa mediocridade estratégica.

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Problemas crónicos

por Luís Naves, em 08.11.15

Para se compreenderem os problemas crónicos da comunidade política e as razões do nosso declínio, é preciso recuar no tempo. A democracia soma mais de 140 anos e teve três períodos, os dois primeiros marcados pelo fim abrupto sob pressão de um efeito externo. A Terceira República era um sistema semi-presidencial que nunca funcionou e não resistiu ao vandalismo ludita dos anos 30; seguiu-se a curta fase presidencial, que teve um único presidente durante 15 anos e não resistiu às alianças que, a partir de 2050, os europeus fizeram com a Rússia e a China; a actual Quinta República é uma democracia parlamentar proporcional, mas mostra sinais de ter degenerado num sistema populista de governo por sondagens, ou seja, onde os políticos obedecem a uma lógica de agradar às maiorias sociológicas das redes sociais, satisfazendo os interesses instalados das suas clientelas. O direito de voto abrange menos de um quinto da população (biológica ou eléctrica) e num parlamento com 15 partidos, a formação de governos é um jogo de conveniências, contagem simples de likes. Esta semana houve um referendo e só este mês já foram organizados cinco, em temas fúteis. Este sistema privilegia a eleição de políticos sem vontade própria, que se limitam a perguntar ao povo qual a decisão mais popular. Penso que isto nos condena à irrelevância. A nossa comunidade condena-se a viver na periferia do corpo político da Eurásia, sem os capitais e a tecnologia da Europa Central, sem os recursos físicos da Rússia, sem a força humana da China. Pertencemos ao bloco económico mais poderoso do mundo, mas somos uma parte perfeitamente dispensável, olhada até com certo desprezo.

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