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Nevões

por Luís Naves, em 25.01.16

Depois da inundação, os nevões sérios, com quase um metro de neve. Lisboa fica na mesma latitude de Washington e, após o enfraquecimento da corrente do golfo, o clima modificou-se. Se lermos os livros antigos, encontramos relatos de invernos suaves, e julgo que ao longo do século XX apenas em dois anos nevou em Lisboa, e somente nas zonas mais altas da cidade. Isto começou a mudar em meados do século XXI, quando se instalou um clima mais seco e extremo, com chuvas catastróficas concentradas em poucos dias, semanas e meses sem uma nuvem no céu, verões insuportáveis e nevões de inverno, em cada ano, sobretudo no final de Janeiro. Com neve abundante, Lisboa fica quase paralisada. É muito estranho não ver as pessoas a esvoaçar como pássaros, seguras pelas suas mochilas de propulsão magnética; é estranho não ver as multidões apressadas, em cima dos seus skates ultra-rápidos, que obviamente não podem deslizar na neve; é estranho pressentir que os cidadãos se escondem nas caves dos edifícios, por vezes vinte andares abaixo do solo; é estranho sentir a baixa luminosidade à superfície, o capacete de nuvens grossas, a luz artificial a romper a neblina; e não deixo de associar a neve a um estranho cheiro frio, sei que é ilusão, sei tudo isso, uma impressão apenas minha, mas não deixa de ser estranho o abrandamento dos ruídos normais, como se Lisboa estivesse adormecida, debaixo de um colchão de penas brancas, muito fofo e quente.

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Diário

por Luís Naves, em 08.01.16

Um diário devia servir para contar a parte da vida que não podemos confessar a ninguém, sobretudo a nós próprios. Sempre quis escrever uma espécie de diário, mas nunca o fiz por sentir que isso não é possível. A ficção é uma mentira verdadeira em que ficamos expostos à curiosidade alheia, mas ninguém nos leva a sério; no diário, tudo é pomposamente mentira, ou assim parece, pois o diarista esconde-se atrás de cenários elaborados e histórias complexas. Enfim, o diário é a suprema invenção de uma personagem, o próprio autor, tal como ele se imagina nas suas limitações e sonhos, nas suas fraquezas raramente descritas, nas pequenas invejas e medos. E que interesse pode ter a personagem do autor? Em princípio, pouco, pois aquilo que verdadeiramente importa na literatura é o que está no exterior da esfera íntima de quem escreve, o que se observa, o que se vive e o que se imagina. Raramente ele mesmo, ou é a vaidade que se espalha pelas páginas. Talvez seja assim, não sei. Isto, de qualquer forma, nunca será um diário, pois a verdade não passa de uma aproximação, um ponto de vista. Leiam estas linhas como peregrinação pelo interior do que está fora de mim, deambulações vagas e textos vários, observações, prosas oficinais, nada para levar a sério, reflexões de que me envergonharei, sempre aquém do que imagino, imperfeito, impreciso e em movimento, também sufocante, como poeira solta no vento.

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Alexis

por Luís Naves, em 10.11.15

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A festa na mansão de Sintra durou uma semana e o Alexis mostrou o novo quadro, a réplica de um obscuro mestre do expressionismo centro-europeu tardio. Aqueles verdes da tela! O mistério daquelas árvores que parecem fechar-se sobre o enigma das casas ao fundo! Tive profunda inveja. O que o dinheiro compra! O robô-pintor custou uma fortuna, chama-se Vincent, mas é pouco falador. Só há um modelo em Portugal, 45 em todo o mundo. A colecção do Alexis já vai em dez quadros clássicos, todos cópias precisas dos originais, incluindo as telas, as tintas e a pincelada, tudo enfim, à excepção da identificação de Vincent, obrigatória por lei, na parte de trás.

A mansão de Sintra fica isolada na floresta. Tem trinta quartos e um exército de robôs para todas as tarefas. Também há uma família de refugiados que não faz nada, só parece andar por ali, um exotismo adicional, capricho de milionário. A comida estava deliciosa, feita por um chef que é também modelo raro e dispendioso. Alexis tem este defeito: gosta de exibir a riqueza, esbanja a fortuna, é sempre extravagante. Tem ao serviço um filósofo (também só há uma centena de modelos) e acompanhantes lindíssimas, cuja felicidade e beleza enchem os salões de riso.

Nas caves, Alexis instalou a colecção particular. Há ali os mais estranhos objectos que o tempo pode reunir, como relógios mecânicos, brinquedos com duzentos anos, livros e pinturas originais da era industrial. Vi uma velha câmara fotográfica Zorkyn, soviética, do tempo da guerra fria, que ainda funciona. Na visita, Alexis mostrou aos convidados um velho telefone, suponho que do início do século XX. Explicou como funcionava (eu sabia, pois já vi num filme antigo): coloca-se o dedo indicador numa ranhura com o número escolhido e faz-se rodar o disco central do aparelho até ficar preso, largando-se o disco, que volta à posição inicial, depois marca-se outro número (e a maquineta faz re-re-re-re-re). E havia postais, rádios, colecções de cromos, moedas, um cheiro especial de poeira antiga. Espantou-me um jogo de xadrez com peças em madeira e adorei a Zorkyn (restam dez em todo o mundo), que foi mais cara do que o quadro das árvores verdes distorcidas.

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Escrita diária

por Luís Naves, em 06.11.15

Ainda pouco falei sobre mim no meu diário, o que suponho constitui falta grave. E, no entanto, a escrita quotidiana aproxima-se do que faço. De uma montanha de informação tento extrair uma pepita dourada cuja singularidade esclareça certos fenómenos. No fundo, busco padrões no interior do espesso nevoeiro da desordem. Hoje em dia, as pessoas produzem informação como se fosse lixo e, se temos máquinas que podem fazer a reciclagem destes materiais da memória, o Estado escolheu confiar uma tarefa adicional a algumas pessoas do meu género, uma espécie de classe de mineiros capaz de mergulhar nas profundezas do tempo para extrair uma interpretação que faça sentido. Pertenço, pois, a uma classe de operários, um grupo desfavorecido.

Sou estudioso do final do século XX e início do XXI, mas sei que os intelectuais não estão na moda e de pouco servem em tempos que apagam o passado. Tento ler o mais possível, procuro imagens que me expliquem aquele mundo antigo. Consulto arquivos e leio livros velhos. No resto do tempo, vivo como os outros: festas, convívio, conversas, passeios, as minhas coisas.

Julgo que este diário é um razoável símbolo do que sou: o que aqui fica é apenas a parte ínfima do que me acontece ou sinto em cada dia. Os dias são feitos de rotinas, pensamentos que passam sem registo, pequenos eventos que logo esquecemos, o alheamento do sono, a reconstrução daquilo que lembramos, mesmo a sua reinvenção. Entre tanta informação semelhante, escolhe-se para a narrativa do diário o que julgamos definir-nos melhor, mas é quase sempre uma banalidade como as outras, o minúsculo equívoco, a mera ilusão de grandeza, a cintilação de um breve instante no gigantesco fogo-fátuo da vida.

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