Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Tentando explicar três décadas de crise

por Luís Naves, em 14.01.16

future-world.jpg

 

Os antigos preocupavam-se com as clivagens entre esquerda e direita, mas na realidade o que existia era oposição entre pragmatismo conservador e ilusões populistas. Isto correspondia a duas visões diferentes da realidade, o que explica a erosão dos partidos tradicionais que tinham construído a sociedade estável do final do século XX. Na crise do primeiro terço do século XXI, que culminou nos movimentos do grande vandalismo (a que alguns historiadores chamam a flagelação), o modelo de democracia liberal estava já em dificuldades. As elites tinham fracassado: os intelectuais viviam em bolhas de fantasia, os donos da economia tinham atraiçoado o próprio capitalismo, os líderes políticos manifestavam a sua incapacidade de acção. A crítica populista que se espalhou pela Europa nas três primeiras décadas do século sublinhava com demagogia como o homem pequenino era massacrado: nos anos anteriores, os gestores ganhavam bónus milionários cada vez que despediam milhares de trabalhadores das suas empresas, o que melhorava a produtividade e acentuava a crise social. Era isso o capitalismo? A injustiça e o absurdo? Então, diziam os demagogos, não o queremos, como não queremos políticos cheios de banalidades e regras burocráticas, não queremos intelectuais que, omitindo o seu verdadeiro pensamento, falam em linguagem opaca e elitista.

A esquerda tradicional das democracias liberais já não tinha soluções para um mundo em mudança que, naquelas condições demográficas, não podia manter as estruturas do Estado social criadas no século XX. A direita foi por sua vez ultrapassada quando tentava conceber um modelo de Estado mínimo, algo que contrariava a crescente complexidade da sociedade global. Os populistas eram anti-elitistas, mas defendiam um Estado forte. Fracassaram mais tarde, em meados do século, por tentarem gerir a singularidade e a respectiva vaga de globalização adicional. Daí as desordens. Esta é a melhor explicação que encontro para as vagas políticas que destruíram a democracia liberal na Europa no primeiro terço do século XXI, mas posso estar a esquecer outros factores.

Autoria e outros dados (tags, etc)



Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D