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Aparição

por Luís Naves, em 10.01.16

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Assustei-me ao ver aquela figura pálida a caminhar na minha direcção, sorrindo de forma que me pareceu perversa. De súbito, via à minha frente a minha própria imagem ao espelho, mas não havia espelho algum entre nós, aquela era apenas uma pessoa igual a mim, ou o que me pareceu ser uma pessoa, enfim, não era sonho, embora o episódio pudesse tratar-se de alucinação, de um erro da minha parte, do efeito da bebida (sim, confesso, bebera demasiado nessa noite). E a imagem ao espelho não era isso, pois a minha cicatriz na testa fica sempre do lado direito quando me olho ao espelho e, no caso deste estranho silencioso, estava claramente à esquerda a mesma cicatriz que eu tenho. E, quando me refiz do susto, vendo claramente que alguém igual a mim me observava com curiosidade e em silêncio, tentei falar e apenas me ocorriam palavras inúteis, incapazes de traduzir o meu espanto. A cena durou poucos segundos. Depois, tão depressa como aparecera, o homem mergulhou de novo nas sombras, num nevoeiro que a pálida luz dos escritórios ainda iluminava tenuemente. Enquanto na boca do estômago sentia uma poderosa náusea, comecei a imaginar que esse outro semelhante a mim teria uma existência própria e devia, por isso, conhecer as pessoas que eu conhecia. Talvez isso explicasse a estranheza com que alguns amigos agora me recebem, como se testemunhassem a aparição de um fantasma.

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Diário

por Luís Naves, em 08.01.16

Um diário devia servir para contar a parte da vida que não podemos confessar a ninguém, sobretudo a nós próprios. Sempre quis escrever uma espécie de diário, mas nunca o fiz por sentir que isso não é possível. A ficção é uma mentira verdadeira em que ficamos expostos à curiosidade alheia, mas ninguém nos leva a sério; no diário, tudo é pomposamente mentira, ou assim parece, pois o diarista esconde-se atrás de cenários elaborados e histórias complexas. Enfim, o diário é a suprema invenção de uma personagem, o próprio autor, tal como ele se imagina nas suas limitações e sonhos, nas suas fraquezas raramente descritas, nas pequenas invejas e medos. E que interesse pode ter a personagem do autor? Em princípio, pouco, pois aquilo que verdadeiramente importa na literatura é o que está no exterior da esfera íntima de quem escreve, o que se observa, o que se vive e o que se imagina. Raramente ele mesmo, ou é a vaidade que se espalha pelas páginas. Talvez seja assim, não sei. Isto, de qualquer forma, nunca será um diário, pois a verdade não passa de uma aproximação, um ponto de vista. Leiam estas linhas como peregrinação pelo interior do que está fora de mim, deambulações vagas e textos vários, observações, prosas oficinais, nada para levar a sério, reflexões de que me envergonharei, sempre aquém do que imagino, imperfeito, impreciso e em movimento, também sufocante, como poeira solta no vento.

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Inundações

por Luís Naves, em 05.01.16

Durante alguns dias, não consegui escrever neste diário. A realidade impôs-se. Após uma longa seca, a chuva começou a cair numa terça-feira e, durante toda a semana, não abrandou nem durante um único minuto. Parecia a monção, de tão densa e escura, mas estamos no Inverno, invulgarmente doce e quase tropical, é certo, mas inverno mesmo assim. Fomos avisados para o o perigo dos fenómenos climáticos extremos e este evento foi uma dessas calamidades. Ao terceiro dia de chuva contínua, rebentaram as velhas canalizações, ao quarto dia já a baixa histórica estava inundada e parecia a antiga cidade de Veneza, que não pôde ser salva das águas. A inundação chegou ao Rossio e cobriu os túneis, as velhas catacumbas, todos os alicerces da cidade. De montante do rio vinha uma corrente irresistível, que criou mais deslizes, colapsos, enxurradas, levando casas flutuantes, derrubando torres habitadas e devastando bairros inteiros. Como que respondendo a uma memória instintiva, a água reocupou o leito de rios esquecidos. Como sempre, foram os mais pobres a pagar o preço da decadência, sobretudo os migrantes e refugiados, que os poderes públicos consideram dispensáveis. Ao quinto dia, houve um apagão eléctrico, que ainda não está totalmente resolvido. Em muitas zonas, falta água potável. Os hospitais e as morgues estão repletos. A chuva já parou e a cidade começa lentamente a recuperar, a cheia já recua, mas morreram mais de cinco mil pessoas e há dezenas de milhares de desalojados, que se amontoam em condições precárias, nos edifícios públicos sobreviventes. Como é fácil cair no caos e como se compreende melhor, nestas circunstâncias, o período do grande vandalismo ou aqueles tempos perturbados em que a humanidade parece recuar.

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Mais do mesmo

por Luís Naves, em 02.01.16

Numa larga extensão de terreno, vejo apenas as cores fortes e as formas estranhas dos edifícios. Todos eles têm largas superfícies envidraçadas e parecem bonecos de plástico que uma criança abandonou no chão do quarto. Torna-se quase enjoativo o contraste entre carmim, açafrão, ocre e azul-cobalto. Os edifícios estendem-se ao longo de avenidas intermináveis, como se fossem sequências diferentes das mesmas proteínas. Há por esta zona da cidade centenas de empresas, na sua maioria estrangeiras, mas não vejo árvores ou qualquer sinal da natureza. O futuro que aqui se constrói será um mundo artificial. Nas caves dos andares inferiores, os laboratórios futuristas são controlados por máquinas, algumas das quais lembram formas humanas e, segundo me disseram, algumas das quais escondem, atrás das placas de materiais resistentes, componentes orgânicos sofisticados que melhoram a sua inteligência artificial. Os olhos são meio biológicos, metade máquina; os cérebros têm tecidos com ADN desenvolvido por computador e adaptado às funções complexas da sua utilização. Conheci um dos donos do bairro tecnológico e perguntei-lhe o que se fabricava ali e ele disse-me, encolhendo os ombros e desviando o olhar, que não me inquietasse, pois “fabrica-se mais do mesmo”.

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